O líder que também precisa ser discipulado: por que quem cuida também precisa de cuidado

Existe uma mudança silenciosa que pode acontecer quando começamos a
liderar pessoas. Antes, éramos acompanhados, ensinados, corrigidos e
orientados. Depois, passamos a ensinar, aconselhar, decidir, pregar e
cuidar.

Pouco a pouco, podemos ocupar tanto o lugar de quem orienta que
deixamos de ocupar o lugar de quem também precisa ser orientado.

Esse é um risco sério na vida cristã e no ministério. O discipulado
de líderes cristãos não termina quando alguém assume um púlpito, uma
classe, um ministério ou uma posição de responsabilidade. Na verdade,
quanto maior a responsabilidade, mais importante se torna continuar
tendo pessoas maduras que possam caminhar conosco.

Podemos conhecer a Bíblia e ainda precisar aprender.

Podemos aconselhar e ainda precisar de conselho.

Podemos cuidar e ainda precisar de cuidado.

Podemos liderar pessoas e continuar sendo discípulos.

Antes de sermos líderes, continuamos sendo discípulos

Jesus formou discípulos antes de enviá-los como líderes.

Os homens que depois pregariam, ensinariam, organizariam comunidades
e enfrentariam enormes responsabilidades passaram primeiro pelo processo
de caminhar com Cristo, ouvir, observar, perguntar, errar, receber
correção e amadurecer.

A liderança não cancelou essa identidade.

Pedro se tornaria uma das figuras mais conhecidas da igreja nascente,
mas continuaria debaixo da autoridade de Cristo. Mais tarde, ao orientar
outros líderes em 1 Pedro 5, ele apresenta Jesus como o Supremo Pastor.
A imagem é importante porque coloca todos nós no lugar correto.

Existe um Supremo Pastor.

Nós não somos Ele.

Quem lidera o rebanho continua pertencendo ao rebanho de Cristo.

Quando esquecemos essa verdade, pode surgir uma sensação perigosa de
independência espiritual. Começamos a imaginar que, por ensinar outras
pessoas, já não precisamos receber ensino. Por aconselhar, deixamos de
procurar conselho. Por corrigir, ficamos desconfortáveis quando alguém
nos corrige.

Um cargo pode mudar nossa responsabilidade. Não deveria eliminar
nossa condição de discípulos.

Quem ensina também precisa continuar aprendendo

Atos 18 apresenta um episódio muito interessante na vida de
Apolo.

Ele era eloquente, conhecia as Escrituras e ensinava com dedicação.
Não estamos diante de alguém despreparado ou indiferente. O texto
apresenta um homem capacitado.

Mesmo assim, Priscila e Áquila perceberam que ele precisava
compreender algumas coisas com maior precisão e o ajudaram.

Apolo poderia ter reagido mal.

Poderia pensar: “Eu sou o pregador aqui.”

Poderia usar seu conhecimento como defesa contra qualquer
orientação.

Não foi esse o caminho apresentado pela narrativa. Um homem que já
ensinava também recebeu ensino.

Existe maturidade nisso.

Crescer espiritualmente não significa chegar ao ponto em que ninguém
mais consegue acrescentar nada à nossa vida. Crescer também significa
desenvolver humildade suficiente para reconhecer que sempre existirão
áreas que ainda precisam de correção, aprofundamento e
amadurecimento.

O líder saudável não é aquele que sabe tudo. É aquele que continua
ensinável.

Discipulado não é fiscalização da vida do líder

Quando falamos sobre discipulado de líderes, precisamos fazer uma
distinção importante.

Discipulado saudável não significa criar alguém para controlar cada
decisão do pastor, exigir acesso irrestrito à sua vida ou estabelecer
uma relação de dependência.

Também não significa encontrar uma pessoa que simplesmente concorde
conosco.

O discipulado cristão está relacionado ao crescimento à semelhança de
Cristo. Envolve Palavra, caráter, oração, obediência, relacionamentos,
decisões e vida prática.

Por isso, um líder precisa de pessoas maduras diante das quais
consiga conversar sem montar uma defesa antes de ouvir.

Gente que possa perguntar como realmente está sua vida com Deus.

Que consiga perceber quando o ministério começou a ocupar espaços que
não deveria ocupar.

Que tenha liberdade para questionar uma decisão.

Que consiga dizer com respeito: “Pense novamente sobre isso.”

Essa relação não diminui a autoridade do líder. Ajuda a impedir que
autoridade se transforme em isolamento.

O perigo começa quando ninguém mais consegue nos confrontar

Uma pergunta desconfortável pode revelar muita coisa:

Quem possui liberdade para me corrigir?

Não estou perguntando quem reclama de nossas decisões. Líderes sempre
receberão críticas, inclusive críticas injustas.

A questão é diferente.

Quem conhecemos como pessoa madura, equilibrada e comprometida com
Deus, cuja palavra levamos seriamente em consideração quando ela aponta
algo em nossa vida?

Um líder pode construir ao redor de si um ambiente no qual todos
concordam com ele. Pode selecionar apenas pessoas que confirmam suas
opiniões. Pode interpretar qualquer discordância como insubmissão.

Quando esse comportamento cresce, o líder começa a perder uma das
maiores proteções da caminhada cristã: a possibilidade de ser
confrontado em amor.

Provérbios apresenta repetidamente o valor do conselho e da correção.
A sabedoria bíblica não combina com a ideia de uma pessoa tão importante
que já não necessita ouvir ninguém.

Autoridade sem humildade pode produzir cegueira.

Quanto mais poder de decisão possuímos, mais precisamos de maturidade
para permitir que alguém enxergue aquilo que nós mesmos podemos não
estar percebendo.

Podemos estudar a Bíblia para os outros e deixar de ouvi-la para nós

Existe outro risco particularmente presente na vida de quem prega e
ensina.

Podemos abrir a Bíblia diariamente e, ainda assim, começar a nos
relacionar com ela principalmente como ferramenta de trabalho.

Lemos procurando o próximo sermão.

Estudamos pensando na aula.

Marcamos um versículo imaginando uma publicação.

Encontramos uma aplicação e imediatamente pensamos em quem precisa
ouvi-la.

A Palavra continua sendo estudada, mas quase sempre destinada a outra
pessoa.

Paulo escreveu a Timóteo em 1 Timóteo 4:16 para que ele tivesse
cuidado consigo mesmo e com o ensino. A orientação une vida e
doutrina.

Antes de perguntar “como pregarei este texto?”, também precisamos
perguntar “o que este texto está fazendo comigo?”.

Antes de ensinar sobre perdão, preciso examinar meus próprios
ressentimentos.

Antes de pregar sobre família, preciso olhar para meus
relacionamentos dentro de casa.

Antes de falar sobre humildade, preciso permitir que a Palavra
confronte meu orgulho.

Antes de ensinar pessoas a ouvir Deus, preciso continuar disposto a
ouvi-lo.

Um dos sinais importantes de discipulado na vida do líder é continuar
permitindo que a Bíblia atravesse primeiro nossa própria consciência
antes de se transformar em conteúdo para os outros.

Quem cuida das pessoas também precisa receber cuidado espiritual

Atos 20:28 começa com uma orientação muito significativa aos líderes:
cuidar de si mesmos e de todo o rebanho.

As duas responsabilidades aparecem juntas.

Cuidar de si não significa desenvolver uma vida centrada em si mesmo.
Significa reconhecer que também possuímos uma alma que precisa ser
pastoreada.

Pastores enfrentam tentações.

Líderes atravessam períodos de dúvida.

Pregadores podem ficar espiritualmente secos.

Quem aconselha outras famílias também pode enfrentar dificuldades
dentro de casa.

Quem ensina sobre fé pode passar por momentos em que precisa ser
fortalecido.

O problema aparece quando o papel ministerial começa a impedir a
pessoa de admitir suas próprias necessidades.

Alguns líderes se acostumam tanto a responder “está tudo bem” que já
nem sabem como iniciar uma conversa diferente.

Por esse motivo, receber cuidado espiritual não deveria começar
apenas quando surge uma crise.

Precisamos de espaços nos quais alguém também ore por nós, pergunte
por nossa caminhada com Deus, converse sobre nossas decisões e nos ajude
a perceber áreas que estamos negligenciando.

O isolamento raramente começa de forma consciente. A leitura de Rede de apoio para líderes amplia essa reflexão sobre amizade, mentoria e relacionamentos seguros.

Discipulado também protege o líder contra o ministério solitário

Existe diferença entre ter muitos contatos e possuir relacionamentos
nos quais somos realmente conhecidos.

Um líder pode conversar com dezenas de pessoas durante uma semana e
continuar sem alguém diante de quem consiga reconhecer uma fraqueza.

Pode participar de reuniões, responder mensagens, aconselhar famílias
e ensinar grupos, porém continuar espiritualmente sozinho.

O discipulado ajuda a quebrar essa lógica porque nos obriga a sair do
papel permanente de quem oferece respostas.

Em alguns momentos, precisamos sentar para ouvir.

Em outros, precisamos dizer: “Não sei o que fazer.”

Também existem momentos em que precisamos reconhecer: “Errei.”

Essa vulnerabilidade precisa ser exercida com prudência. Um pastor
não deve expor informações confidenciais da igreja nem transformar
qualquer pessoa em confidente de assuntos sensíveis.

Por isso, escolher quem caminhará conosco exige sabedoria, tempo e
confiança.

O importante é não transformar prudência em desculpa para
isolamento.

Quando o cuidado falta por muito tempo, o desgaste pode crescer silenciosamente. Veja também os sinais de burnout pastoral que aparecem antes do colapso.

Como construir uma relação saudável de discipulado sendo líder

Não precisamos criar uma estrutura complicada. Alguns passos simples
podem ajudar:

  1. Procure alguém espiritualmente maduro e
    confiável.
    Não escolha apenas pela posição que a pessoa ocupa.
    Observe caráter, discrição, equilíbrio bíblico e capacidade de
    ouvir.

  2. Crie regularidade. Conversas profundas raramente
    acontecem quando dependem apenas de alguma sobra na agenda. Um encontro
    periódico ajuda a desenvolver confiança.

  3. Permita perguntas difíceis. Família,
    integridade, dinheiro, descanso, tentações, orgulho, vida devocional e
    decisões ministeriais não precisam se tornar áreas proibidas.

  4. Mantenha Cristo e a Palavra no centro.
    Discipulado não é dependência emocional nem transferência das decisões
    para outra pessoa. O objetivo é ajudar cada um de nós a caminhar com
    maior fidelidade diante de Deus.

  5. Reconheça os limites dessa relação. Um
    discipulador, mentor ou pastor amigo não substitui atendimento
    profissional quando existe uma necessidade médica, psicológica, jurídica
    ou de outra área especializada.

Também não precisamos encontrar uma pessoa que desempenhe todas as
funções.

Um amigo pode oferecer companhia.

Um pastor experiente pode ajudar em questões ministeriais.

Um discipulador pode acompanhar nossa vida espiritual.

Um profissional qualificado pode cuidar de necessidades específicas
quando for necessário.

O problema não está em receber diferentes formas de ajuda. O problema
é acreditar que precisamos enfrentar tudo sozinhos.

O princípio de transmitir a fé a pessoas fiéis, que também ensinarão outras, aparece de modo claro em 2 Timóteo 2:2.

Continuar sendo discípulo também protege o nosso chamado

Quanto mais tempo servimos, maior pode ser a tentação de acreditar
que experiência elimina a necessidade de acompanhamento.

Não elimina.

Experiência ensina muito, mas também pode criar hábitos difíceis de
perceber. Conhecimento ajuda, mas não nos torna imunes ao orgulho. Anos
de ministério oferecem maturidade, porém não retiram nossa necessidade
de comunhão, correção e crescimento.

Continuamos sendo pessoas em formação.

Precisamos continuar aprendendo.

Precisamos continuar ouvindo.

Precisamos continuar permitindo que Deus use outras pessoas para
trabalhar em nossa vida.

Quem lidera não deixa de ser discípulo quando começa a
discipular.

Na verdade, uma das melhores maneiras de ensinar outras pessoas a
crescer é continuar crescendo diante delas.

Por isso, existe uma pergunta que cada líder pode fazer com
sinceridade:

Além das pessoas que eu discipulo e cuido, quem possui
liberdade para discipular e cuidar de mim?

Se não conseguimos pensar em ninguém, essa ausência merece nossa
atenção.

No Amor de Cristo,

Pastor Adilson Batista

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