Você apaga a luz, encosta a cabeça no travesseiro e espera que o sono venha. Só que, justamente quando a casa fica mais silenciosa, sua mente começa a lembrar da conta que precisa pagar, da conversa que não terminou bem, do exame que ainda não saiu, do problema de um filho ou daquela decisão que você vem adiando.
O corpo está cansado, mas a cabeça continua trabalhando.
Em alguns momentos, o coração parece bater mais forte ou mais rápido. Você olha para o relógio. Tenta dormir. Quanto mais tenta, mais desperto fica.
Ansiedade à noite pode se apresentar dessa maneira. Preocupação, dificuldade para dormir e palpitações podem aparecer juntas. Mas existe um cuidado importante desde o começo: nem todo coração acelerado é causado por ansiedade, e nem toda insônia deve ser tratada apenas como um problema espiritual.
Podemos cuidar da nossa vida com Deus sem desprezar o corpo. Podemos orar e, quando necessário, procurar avaliação profissional. Uma atitude não precisa excluir a outra.
Por que a preocupação parece aumentar justamente à noite?
Durante o dia, nossa atenção está dividida entre conversas, compromissos, trabalho, tarefas da casa, telefone e decisões.
Quando chega a noite, boa parte desses estímulos desaparece.
O problema que ficou escondido atrás da correria pode voltar para o centro da atenção.
A pessoa se deita para descansar, mas começa a revisar mentalmente o que aconteceu:
“Por que eu disse aquilo?”
“Como vou resolver esse problema amanhã?”
“E se o resultado der errado?”
“Como vou conseguir pagar?”
“E se acontecer alguma coisa com quem eu amo?”
Uma preocupação puxa outra.
O sono demora. Quando a pessoa percebe que não está conseguindo dormir, surge uma segunda preocupação: o próprio medo de não dormir.
Agora ela não está apenas preocupada com os problemas do dia. Está pensando: “Preciso dormir, amanhã vou acordar acabado.”
Essa pressão pode manter o estado de alerta.
Dificuldade para iniciar o sono, despertares durante a noite e acordar antes do desejado fazem parte das manifestações da insônia. Quando o problema acontece três ou mais vezes por semana, persiste por pelo menos três meses e traz consequências durante o dia, merece uma avaliação mais cuidadosa. (PubMed Central (PMC))
Coração acelerado à noite nem sempre significa ansiedade
Aqui precisamos ter equilíbrio.
Ansiedade pode provocar sintomas físicos. Algumas pessoas sentem tremores, suor, tensão, respiração diferente e palpitações. A própria preocupação pode ativar respostas corporais que fazem os batimentos parecerem mais fortes ou rápidos. (Cleveland Clinic)
Mas não devemos concluir automaticamente:
“Meu coração acelerou porque estou ansioso.”
Palpitações também podem estar relacionadas a cafeína, alguns medicamentos, alterações da tireoide, anemia ou problemas do ritmo cardíaco, entre outras possibilidades. (nhs.uk)
Por isso, episódios frequentes, persistentes, diferentes do habitual ou que estejam piorando merecem avaliação de um profissional de saúde.
Se o coração acelerado vier acompanhado de dor no peito, falta de ar importante, sensação de desmaio ou desmaio, procure atendimento de urgência. No Brasil, o SAMU atende pelo número 192. (nhs.uk)
Não é prudente transformar todo sintoma físico em ansiedade antes de investigar quando a situação pede investigação.
A Bíblia não nos manda fingir tranquilidade
Existe outro sofrimento que algumas pessoas cristãs carregam durante essas noites.
Além da preocupação, aparece culpa.
“Se eu confiasse mais em Deus, estaria dormindo.”
“Um cristão de verdade não deveria ficar assim.”
“Estou preocupado porque minha fé está fraca.”
Precisamos tomar cuidado com esse tipo de conclusão.
A Bíblia não apresenta pessoas de fé como seres humanos incapazes de sentir medo, inquietação, tristeza ou angústia.
Se essa culpa espiritual estiver pesando sobre você, o artigo Ansiedade não é falta de fé: como cuidar da mente sem se afastar de Deus aprofunda exatamente essa questão.
Fé não significa negar aquilo que estamos sentindo. Significa também aprender onde colocar aquilo que sentimos.
O Salmo 4 fala com quem precisa atravessar a noite
O Salmo 4 nasce em um contexto de aflição.
Davi não escreve a partir de uma vida sem conflitos. Ele fala com Deus no meio da pressão, apresenta sua angústia e termina fazendo uma afirmação muito conhecida: pode deitar-se em paz porque sua segurança está no Senhor.
Precisamos ler essa passagem com cuidado.
O salmo não apresenta uma técnica para dormir.
Também não promete que quem recitar determinado versículo perderá imediatamente a insônia.
A força do texto está em outra direção.
Davi chega à noite reconhecendo que existe uma diferença entre os problemas que continuam acontecendo e aquele em quem deposita sua segurança.
O problema não precisa estar totalmente resolvido para que eu pare de tentar resolvê-lo às duas horas da manhã.
Essa distinção pode nos ajudar muito.
Existem responsabilidades que pertencem a amanhã. Existem conversas que não poderão acontecer agora. Existem resultados que ainda não chegaram. Existem situações sobre as quais nós simplesmente não temos controle nesta madrugada.
Nem tudo o que preocupa minha mente precisa ser resolvido antes que eu durma. Algumas coisas precisam de ação amanhã. Outras precisam ser colocadas diante de Deus hoje.
Entregar a preocupação não significa abandonar a responsabilidade
Quando a Bíblia nos ensina a confiar, ela não está ensinando irresponsabilidade.
Se existe uma conta vencendo, ela precisa ser organizada.
Se existe uma conversa necessária, ela precisa acontecer.
Se precisamos marcar uma consulta, a providência deve ser tomada.
Se cometemos um erro, talvez seja necessário pedir perdão ou corrigir alguma coisa.
Fé não transforma problemas reais em problemas imaginários.
O que precisamos aprender é separar duas coisas: responsabilidade e antecipação.
Responsabilidade pergunta:
“O que posso fazer a respeito?”
A antecipação ansiosa passa horas imaginando todos os resultados possíveis sem conseguir agir sobre nenhum deles.
Quando você perceber esse movimento, faça perguntas mais concretas:
O que realmente aconteceu?
O que estou apenas imaginando?
Existe alguma providência que eu possa tomar agora?
O que só poderá ser resolvido amanhã?
O que não depende de mim?
Essa mesma distinção aparece com mais profundidade no artigo Quando tudo foge do controle: onde encontrar segurança em tempos de incerteza.
Quando o sono não vem, não transforme a cama em campo de batalha
Existe uma armadilha comum.
A pessoa pensa:
“Eu tenho que dormir agora.”
Olha novamente para o relógio.
“Já passou meia hora.”
Depois olha outra vez.
“Agora só tenho cinco horas para dormir.”
O esforço para obrigar o próprio corpo a adormecer aumenta a tensão.
Quando noites assim começam a se repetir, não basta acumular dicas encontradas na internet. A diretriz brasileira sobre insônia reconhece a terapia cognitivo-comportamental para insônia como uma abordagem de primeira linha para casos crônicos, e diretrizes internacionais também apontam intervenções comportamentais estruturadas como parte importante do tratamento. (Academia Brasileira do Sono)
Um horário razoavelmente regular, redução de estímulos perto da hora de dormir, atenção ao consumo de cafeína e uma rotina que ajude o corpo a desacelerar podem contribuir. Porém, nos casos persistentes, simplesmente receber uma lista de regras de “higiene do sono” pode não ser suficiente. (PubMed Central (PMC))
Cuidado adequado começa reconhecendo quando uma dificuldade passageira se transformou num problema recorrente.
Uma maneira prática de organizar uma noite difícil
Quando a mente estiver cheia, pegue papel e escreva o que está preocupando você.
Não escreva um tratado. Apenas dê nome ao problema.
“Estou preocupado com o exame.”
“Preciso resolver uma questão financeira.”
“Estou com medo de uma conversa amanhã.”
Depois escreva ao lado:
“Qual é o próximo passo que realmente está nas minhas mãos?”
Pode ser telefonar pela manhã.
Separar um documento.
Conversar com alguém.
Marcar uma consulta.
Pedir orientação.
Aguardar uma resposta.
Quando encontramos o próximo passo, diminuímos a tentativa de resolver mentalmente aquilo que não pode ser resolvido naquele momento.
Depois disso, ore sobre o problema real.
Não precisa construir uma oração bonita.
Você pode dizer:
“Senhor, este assunto está ocupando minha mente. Existe uma parte que depende de mim e quero agir com responsabilidade. Existe outra parte que eu não consigo controlar. Ajuda-me a não carregar durante esta noite aquilo que não consigo resolver agora.”
Oração não precisa funcionar como anestesia emocional.
Ela pode ser um exercício sincero de dependência.
Cansaço acumulado também precisa ser observado
Algumas noites difíceis não começam naquela noite.
Começam depois de semanas de excesso.
A pessoa cuida de trabalho, família, igreja, problemas de outras pessoas, contas e compromissos. Vai reduzindo descanso para dar conta de tudo até perceber que seu corpo permanece em alerta mesmo quando finalmente pode parar.
Nesse caso, vale também ler O esgotamento de quem cuida de todos, menos de si: como reconhecer limites e reencontrar descanso à luz da Bíblia.
Descanso não é prêmio para quem terminou todas as tarefas.
Como algumas tarefas nunca terminam, quem pensa dessa forma pode passar a vida adiando o próprio limite.
Orar resolve a insônia?
A oração pode trazer consolo, organização interior, esperança e consciência da presença de Deus. Para quem crê, ela faz parte do cuidado espiritual.
Mas não devemos prometer que uma oração específica eliminará um problema de sono.
Insônia pode envolver fatores emocionais, comportamentais e médicos. Quando é persistente, precisa ser tratada com a seriedade adequada.
Podemos orar e procurar tratamento.
Uma coisa não diminui a outra.
Posso simplesmente tomar alguma coisa para dormir?
Automedicação não é uma boa saída para noites recorrentes de insônia.
Até produtos vendidos como suplementos precisam ser usados com responsabilidade. No Brasil, o Ministério da Saúde informa que suplementos de melatonina não possuem indicação aprovada para tratamento de insônia e orienta quem apresenta sintomas persistentes relacionados ao sono a procurar profissional habilitado. (Serviços e Informações do Brasil)
Se você já utiliza medicamento ou está em tratamento, decisões sobre iniciar, alterar ou interromper alguma substância devem ser discutidas com o profissional responsável.
Quando devo procurar ajuda?
Uma noite ruim isolada pode acontecer com qualquer pessoa.
O cuidado muda quando as noites ruins se tornam frequentes, o problema persiste e começa a afetar concentração, disposição, trabalho, relacionamentos ou funcionamento durante o dia.
Também procure avaliação quando as palpitações estiverem se repetindo, durarem mais, estiverem ficando mais frequentes ou forem diferentes do seu padrão habitual. (nhs.uk)
Não precisamos escolher entre cuidado espiritual e cuidado profissional.
Um pastor pode oferecer escuta, oração, reflexão bíblica e acompanhamento espiritual.
Um psicólogo ou médico pode avaliar sintomas, investigar causas e orientar tratamento dentro de sua área.
Cada um ocupa seu lugar.
Este artigo tem caráter educativo e pastoral e não substitui avaliação individual de um profissional de saúde.
Você não precisa vencer a noite inteira de uma vez
Quando estamos acordados no meio da madrugada, nossa mente gosta de viajar até amanhã, depois até a próxima semana e, quando percebemos, estamos tentando resolver meses de vida deitados numa cama.
Volte para o momento presente.
Reconheça o que está sentindo.
Veja se existe alguma providência que realmente precisa ser tomada.
Não ignore sintomas físicos que precisam de avaliação.
Entregue a Deus aquilo que ultrapassa suas possibilidades agora.
E permita-se receber ajuda quando precisar.
O Salmo 4 não nos ensina que a pessoa de fé nunca enfrenta noites difíceis. Ele nos lembra que nossa segurança final não depende de termos todas as respostas antes de fechar os olhos.
Alguns problemas continuarão esperando pela manhã.
E tudo bem.
A madrugada não precisa carregar o peso do dia seguinte inteiro.
Se você estiver atravessando um período em que confiar em Deus parece especialmente difícil, o livro Fé Inabalável pode continuar essa reflexão, ajudando a pensar sobre fé, espera e firmeza em tempos de incerteza.
Quando a noite fica silenciosa e sua mente começa a falar alto, qual é a preocupação que mais costuma impedir você de descansar?
Se a ansiedade também aparece durante o dia, leia Ansiedade não é falta de fé: como cuidar da mente sem se afastar de Deus.
Se a ansiedade também aparece durante o dia e tem afetado sua fé e sua rotina, leia Ansiedade não é falta de fé: como cuidar da mente sem se afastar de Deus.
No Amor de Cristo,
Pastor Adilson Batista




