Podemos envelhecer, acumular conhecimento, estudar durante anos, ocupar posições importantes e ainda assim perder uma das características mais necessárias para continuar crescendo: a disposição para ouvir.
O problema começa quando entramos em uma conversa já preparando a resposta. Alguém tenta nos aconselhar e imediatamente pensamos em como nos defender. Recebemos uma correção e procuramos explicar por que estamos certos. Encontramos uma opinião diferente e, antes de entendê-la, já decidimos rejeitá-la.
Quando paramos de ouvir, nosso aprendizado também começa a diminuir.
A Bíblia liga repetidamente sabedoria, humildade e capacidade de escutar. Tiago 1 orienta o cristão a estar pronto para ouvir e ser tardio para falar e para se irar. Esse princípio alcança nossa vida espiritual, nossos relacionamentos, nossas decisões e até a forma como reagimos quando alguém aponta alguma coisa que preferiríamos não enxergar.
Ouvir não significa concordar com tudo
Existe uma diferença importante entre ouvir e aceitar.
Escutar alguém com atenção não significa considerar verdadeira cada palavra que a pessoa diz. Também não significa abandonar nossas convicções para evitar conflito.
Podemos ouvir e depois discordar. Podemos tentar compreender e continuar pensando diferente. Podemos respeitar a pessoa sem concordar com sua interpretação dos fatos.
O problema aparece quando decidimos que não precisamos sequer escutar porque já sabemos o que o outro vai dizer. Nesse momento, deixamos de avaliar ideias e começamos apenas a defender posições.
Provérbios 18:13 trata diretamente desse comportamento. O princípio é simples: responder antes de ouvir é uma forma de insensatez.
Muitas vezes, não respondemos ao que a pessoa realmente falou. Respondemos ao que imaginamos que ela quis dizer.
Quantos conflitos poderiam ser evitados se fizéssemos uma pergunta antes de levantar a voz?
“Foi realmente isso que você quis dizer?” “Você pode me explicar melhor?” “O que eu não estou conseguindo compreender?”
Essas perguntas parecem pequenas, mas mudam completamente uma conversa.
Existe uma diferença entre ouvir palavras e estar disposto a aprender
Uma pessoa pode permanecer em silêncio enquanto outra fala e ainda assim não estar ouvindo. Ela pode olhar para você, esperar você terminar e continuar exatamente no mesmo lugar porque passou a conversa inteira preparando mentalmente sua defesa.
Escutar exige abertura. E abertura exige humildade.
Quando acreditamos que já conhecemos todas as respostas, qualquer conselho parece desnecessário. Quando pensamos que nossa experiência nos tornou incapazes de errar, qualquer correção parece uma afronta.
A sabedoria bíblica segue por outro caminho. Provérbios 12:15 ensina que o caminho do insensato parece certo aos seus próprios olhos, enquanto o sábio dá ouvidos ao conselho.
Observe que a diferença não está simplesmente entre alguém inteligente e alguém sem conhecimento. A diferença está na postura. Uma pessoa sábia ainda considera que pode aprender.
Uma das perguntas mais importantes que podemos fazer a nós mesmos é esta: quando alguém discorda de mim, eu procuro compreender o que está sendo dito ou começo imediatamente a construir minha defesa?
Tiago não fala apenas sobre comunicação
O contexto de Tiago 1 amplia bastante essa reflexão. A orientação para sermos prontos para ouvir aparece em uma seção que conduz o leitor a receber a Palavra com mansidão e, em seguida, a praticá-la.
Portanto, existe aqui uma dimensão espiritual profunda.
Não basta ouvir uma pregação. Não basta ler a Bíblia. Não basta conhecer versículos.
Podemos estar fisicamente diante da Palavra e, ainda assim, manter o coração resistente ao que precisa ser corrigido.
Tiago mostra que a verdadeira escuta não termina no ouvido. Ela chega à vida.
Quem ouve a Palavra e se recusa continuamente a colocá-la em prática transforma conhecimento em informação acumulada, não em crescimento.
Por isso, nossa pergunta não deveria ser apenas: “O que a Bíblia está dizendo?” Também precisamos perguntar: “O que essa verdade precisa mudar em mim?”
A dificuldade de ouvir aparece com mais força quando somos corrigidos
Receber elogios é fácil. Ouvir uma correção é muito mais difícil.
Quando alguém aponta uma falha, nossa reação imediata pode ser explicar, justificar, comparar ou transferir a responsabilidade.
“Mas você também faz isso.” “Você não sabe o que aconteceu.” “Eu fiz porque não tive escolha.” “Você entendeu errado.”
Pode existir uma explicação legítima. A outra pessoa também pode estar equivocada. Mesmo assim, antes de nos defendermos, existe uma pergunta que pode revelar muita coisa: existe alguma parte dessa crítica que eu preciso considerar?
Essa postura não nos torna fracos. Ela nos impede de desperdiçar uma oportunidade de crescimento simplesmente porque a verdade chegou de uma maneira desconfortável.
Também precisamos aprender a separar correção de humilhação. Nem toda crítica é justa. Nem toda opinião merece o mesmo peso. Existem pessoas agressivas, manipuladoras e irresponsáveis. Sabedoria não significa entregar nossa consciência ao julgamento de qualquer pessoa.
Por isso, devemos considerar quem está falando, quais fatos estão sendo apresentados, se existe coerência e se o conselho está de acordo com princípios bíblicos.
Ouvir com humildade não significa perder discernimento.
Esse cuidado também faz parte do amadurecimento espiritual que vai além da aparência.
Quem fala o tempo inteiro dificilmente percebe o que ainda não sabe
Existe uma tentação comum em quem ensina, lidera, aconselha ou possui muita experiência.
Quanto mais aprendemos, maior pode ser o risco de pensarmos que sempre temos alguma coisa para ensinar e poucas coisas para receber.
Esse é um perigo para pais, pastores, professores, líderes, profissionais experientes e para qualquer pessoa acostumada a ser procurada em busca de respostas.
Experiência é valiosa. Mas experiência não nos torna infalíveis.
Uma pessoa mais jovem pode perceber algo que não percebemos. Um filho pode nos mostrar como determinada atitude o afetou. Um cônjuge pode revelar uma distância que ignoramos. Um amigo pode identificar um comportamento que se tornou invisível para nós.
Se nossa primeira preocupação for proteger nossa imagem, podemos perder justamente aquilo que a conversa poderia nos ensinar.
Em conflitos familiares, aprender a ouvir antes de transformar a conversa em defesa pode abrir espaço para compreensão.

Também precisamos aprender a ouvir quem pensa diferente
Ouvir somente quem concorda conosco é confortável, mas ensina pouco.
Quando conversamos apenas com pessoas que confirmam tudo o que já pensamos, nossas convicções deixam de ser examinadas.
Nem toda discordância merece mudar nossa opinião. Algumas ideias precisam realmente ser rejeitadas. Porém, só conseguimos responder com responsabilidade depois de entender corretamente o argumento apresentado.
Existe uma grande diferença entre dizer “discordo porque compreendi o que você está defendendo e vejo razões para pensar diferente” e dizer “discordo porque não quero ouvir”.
A primeira postura pode nascer de convicção. A segunda pode nascer simplesmente de orgulho.
Nós não precisamos ter medo de ouvir. Verdades bem fundamentadas não ficam mais fracas porque foram examinadas.
Como desenvolver novamente a capacidade de ouvir
Podemos transformar esse princípio em atitudes bastante simples.
Na próxima conversa importante, experimente não interromper imediatamente. Deixe a pessoa terminar.
Depois, antes de responder, tente repetir com suas próprias palavras aquilo que entendeu: “Se compreendi corretamente, você está dizendo que…”
Essa pequena prática ajuda a descobrir se estamos reagindo ao que realmente foi dito.
Quando receber uma correção, evite responder no mesmo instante se estiver irritado. Pense no conteúdo antes de pensar na resposta.
Também podemos fazer perguntas. “O que levou você a pensar assim?” “Você consegue me dar um exemplo?” “Existe alguma atitude específica que você acha que eu preciso rever?”
Perguntas sinceras transformam uma conversa em oportunidade de aprendizado.
Outra prática importante é escolher pessoas maduras que tenham liberdade para nos corrigir.
Se todos ao nosso redor perceberem que qualquer discordância produzirá irritação, chegará um momento em que deixarão de falar. E quando ninguém mais consegue nos dizer a verdade, ficamos perigosamente dependentes da nossa própria percepção.
Precisamos ouvir a Deus com a mesma disposição para sermos corrigidos
Podemos pedir direção a Deus e, ao mesmo tempo, já ter decidido aquilo que queremos fazer. Oramos querendo confirmação, não orientação.
Lemos a Bíblia procurando um texto que apoie nossa decisão, em vez de permitir que as Escrituras examinem nossa decisão.
Ouvir a Deus inclui disposição para abandonar um caminho quando percebemos que ele não corresponde à vontade revelada nas Escrituras. Inclui reconhecer pecado. Inclui rever prioridades. Inclui obedecer mesmo quando a correção confronta nossos desejos.
A Bíblia não foi dada apenas para confirmar tudo o que pensamos. Ela também nos corrige, ensina e confronta.
Por isso, maturidade espiritual não pode ser medida somente pelo quanto sabemos explicar. Também aparece na nossa disposição para continuar aprendendo.
Continue ensinável
Chega um momento em que precisamos decidir que tipo de pessoa queremos nos tornar.
Alguém que precisa estar certo em todas as conversas? Ou alguém suficientemente seguro para ouvir, pensar, avaliar e, quando necessário, reconhecer: “Eu estava errado”?
Continuar ensinável não significa viver inseguro. Significa compreender que nenhum de nós chegou ao ponto em que não tenha mais nada para aprender.
Escute seus filhos. Escute seu cônjuge. Escute pessoas maduras. Escute uma correção antes de rejeitá-la. Escute uma pergunta que desafia sua maneira de pensar.
E, acima de tudo, mantenha o coração aberto para aquilo que Deus deseja ensinar por meio de sua Palavra.
Nossa capacidade de aprender permanece viva enquanto ainda existe em nós humildade suficiente para ouvir.
Quando alguém tenta lhe corrigir ou apresentar uma opinião diferente da sua, qual costuma ser sua primeira reação: compreender ou se defender?
No Amor de Cristo,
Pastor Adilson Batista




