Tudo parece urgente.
A mensagem precisa ser respondida agora. A decisão precisa ser tomada
logo. O resultado precisa aparecer depressa. Se algo demora, começamos a
pensar que alguma coisa deu errado.
Sem perceber, podemos levar essa mesma lógica para nossa vida
espiritual.
Oramos hoje e queremos a resposta amanhã. Começamos um projeto e
esperamos resultados imediatos. Pedimos uma direção a Deus e ficamos
inquietos quando não recebemos rapidamente uma resposta clara.
A pressa do mundo começa do lado de fora, mas facilmente entra em
nós.
O problema não está apenas em termos uma rotina cheia. A questão mais
profunda aparece quando nossa mente continua correndo mesmo quando nosso
corpo parou.
Podemos estar sentados durante alguns minutos de oração e, ao mesmo
tempo, pensando no compromisso seguinte, na mensagem que ainda não
respondemos, no problema que precisamos resolver e em tudo aquilo que
não conseguimos terminar.
O corpo está ali. A mente já foi embora.
Como lidar com a pressa do mundo sem perder a paciência, a confiança
em Deus e a capacidade de viver o presente?
Essa pergunta merece atenção porque nem tudo que acontece rapidamente
acontece no tempo certo.
A cultura da pressa pode entrar também na nossa fé
Vivemos cercados por facilidades que diminuíram muito o tempo de
espera.
Compramos alguma coisa sem sair de casa. Conversamos em poucos
segundos com alguém que está longe. Encontramos informações rapidamente.
Assistimos ao que desejamos no momento em que desejamos.
Muitas dessas facilidades são úteis.
O problema aparece quando começamos a imaginar que toda a vida deve
funcionar com a mesma velocidade.
Relacionamentos não amadurecem instantaneamente.
Caráter não é construído em alguns dias.
Feridas emocionais nem sempre desaparecem rapidamente.
Projetos importantes podem exigir meses ou anos.
Mudanças profundas costumam envolver processo.
A própria vida cristã é apresentada na Bíblia como caminhada,
crescimento, perseverança e amadurecimento.
Quando nos acostumamos demais ao imediato, esperar passa a parecer
perda de tempo.
Também começamos a interpretar demora como ausência de Deus.
Oramos e pensamos: “Por que Ele ainda não respondeu?”
Tentamos alguma coisa e perguntamos: “Por que ainda não
aconteceu?”
Observamos a vida de outra pessoa e pensamos: “Por que ela já chegou
e eu ainda estou aqui?”
Nesse ponto, a pressa deixa de ser apenas uma característica da
rotina. Ela começa a afetar nossa maneira de interpretar a vida.
Nem toda demora significa que Deus se esqueceu de nós
Uma das dificuldades da espera está no fato de não controlarmos o
tempo.
Gostamos de saber quando alguma coisa começará, quanto tempo durará e
em que momento veremos o resultado.
A vida, porém, não nos oferece esse tipo de garantia em todas as
situações.
A Bíblia apresenta muitos personagens que precisaram conviver com
períodos de espera.
Abraão recebeu uma promessa, mas não viu seu cumprimento
imediatamente.
José passou por experiências difíceis antes de ocupar a posição que
mais tarde teria no Egito.
Davi foi ungido rei antes de assumir efetivamente o trono.
Os discípulos também precisaram aprender que o Reino de Deus não
funcionava de acordo com todas as expectativas que eles possuíam.
Esses exemplos não significam que toda espera nossa representa
automaticamente um grande plano escondido de Deus.
Precisamos tomar cuidado para não transformar qualquer demora em uma
promessa que a Bíblia não fez.
A lição é outra.
Esperar faz parte da experiência humana e também aparece
repetidamente na experiência de fé.
Salmo 37:7 nos chama a descansar no Senhor e esperar nele.
Esperar em Deus não significa permanecer imóvel diante da vida.
Significa continuar fazendo aquilo que nos cabe sem tentar controlar
aquilo que somente Deus pode conduzir.
Existe uma diferença entre diligência e pressa
Ser uma pessoa responsável não significa viver acelerado.
Podemos trabalhar com dedicação, cumprir horários, planejar, estudar,
produzir e avançar sem transformar cada dia em uma corrida.
Diligência organiza.
Pressa atropela.
Diligência procura fazer bem aquilo que precisa ser feito.
Pressa quer terminar rapidamente, muitas vezes sem perceber o que
está acontecendo durante o caminho.
Uma pessoa diligente consegue reconhecer prioridades.
Quem está dominado pela pressa começa a considerar quase tudo
prioridade.
Quando tudo se torna urgente, deixamos de distinguir o importante do
simplesmente imediato.
Essa confusão também afeta nossa vida com Deus.
Podemos separar um horário para leitura bíblica e oração, mas
abandoná-lo sempre que aparece alguma solicitação.
Respondemos mensagens, verificamos notificações, resolvemos pequenos
problemas e dizemos a nós mesmos que depois teremos um momento com
Deus.
O “depois” pode nunca chegar.
A agenda se ocupa novamente e aquilo que afirmávamos ser essencial
fica para quando sobrar tempo.
Marta nos ajuda a perceber o perigo da distração
Lucas 10:38-42 apresenta uma cena bastante conhecida.
Jesus entra em uma casa e Marta o recebe. Maria, sua irmã, senta-se
aos pés de Jesus para ouvi-lo.
Marta está ocupada com muitos serviços.
O texto não apresenta o serviço como algo errado em si. Receber
alguém em casa envolvia responsabilidades reais.
O problema aparece quando Marta fica “distraída em muitos serviços” e
começa a se incomodar até com a atitude de Maria.
Jesus então lhe diz que ela estava ansiosa e preocupada com muitas
coisas, enquanto uma coisa era necessária.
A passagem não ensina que trabalhar é inferior a ouvir ou que devemos
abandonar nossas responsabilidades para permanecer o dia inteiro em
atividades devocionais.
O contraste revela algo mais profundo.
Podemos estar fazendo coisas legítimas e ainda assim permitir que
elas ocupem de tal maneira nossa atenção que já não conseguimos perceber
o que realmente importa naquele momento.
Marta estava servindo Jesus, mas sua agitação estava dificultando a
própria experiência de estar com Jesus.
Podemos fazer o mesmo.
Trabalhamos para nossa família e quase não temos tempo para conversar
com ela.
Servimos na igreja e perdemos nossa própria vida devocional.
Falamos sobre Deus para outras pessoas e diminuímos nosso tempo
pessoal com Ele.
Cumprimos tantas obrigações que já não sabemos permanecer em
silêncio.
O tempo com Deus não deveria ser apenas mais uma tarefa
Existe um risco quando transformamos nossa vida espiritual em item de
lista.
Ler a Bíblia: feito.
Orar: feito.
Ir ao culto: feito.
Podemos realizar todas essas atividades corretamente e ainda estar
interiormente distantes.
Tempo com Deus envolve mais do que cumprir uma rotina religiosa.
Rotina é importante porque nos ajuda a desenvolver constância. Porém,
a disciplina espiritual precisa nos conduzir ao relacionamento, não
apenas ao cumprimento de uma obrigação.
Não precisamos transformar cada oração em um discurso longo.
Também não precisamos medir nossa espiritualidade pelo número de
capítulos bíblicos que conseguimos ler em determinado dia.
Existem momentos em que uma leitura mais curta, feita com atenção,
produz uma reflexão mais profunda do que várias páginas percorridas
apressadamente.
O mesmo vale para a oração.
Podemos falar menos e ouvir mais.
Podemos colocar diante de Deus aquilo que realmente estamos
vivendo.
Podemos permanecer alguns minutos em silêncio.
Podemos agradecer sem apresentar imediatamente outra lista de
pedidos.
A pressa nos ensina a terminar.
A comunhão nos ensina a permanecer.
Quando a inquietação deixa de ser passageira, também pode ser útil compreender por que ansiedade não é falta de fé.
Quando a ansiedade pelo amanhã rouba o dia de hoje
Uma das maiores fontes de pressa está no futuro.
Queremos saber o que acontecerá.
Tentamos antecipar cenários.
Pensamos repetidamente sobre decisões que ainda não podem ser
tomadas.
Criamos conversas imaginárias.
Tentamos resolver mentalmente problemas que nem sequer
aconteceram.
Jesus trata da preocupação com o amanhã em Mateus 6:25-34.
A passagem não ensina despreocupação irresponsável. Jesus não está
condenando planejamento, trabalho ou cuidado com as necessidades da
vida.
O ensino está relacionado à preocupação que domina nossa atenção e
nos impede de confiar.
No final da seção, Jesus orienta seus ouvintes a não se inquietarem
com o dia de amanhã, porque cada dia possui seus próprios cuidados.
Existe grande sabedoria prática nessa orientação.
Muitos de nós estamos tentando viver vários dias ao mesmo tempo.
Estamos fisicamente na sexta-feira, mas nossa mente já está na
reunião da segunda.
Estamos no jantar com a família, mas mentalmente resolvendo o
problema do trabalho.
Estamos no culto, mas pensando na conta da próxima semana.
Estamos conversando com alguém, mas olhando para o telefone.
O futuro precisa de planejamento, mas o presente precisa de
presença.
Nem todo pensamento urgente merece uma resposta imediata
A sensação de urgência pode enganar.
Nem tudo que surge em nossa mente precisa ser resolvido naquele
instante.
Uma preocupação pode ser anotada para ser analisada depois.
Uma mensagem pode esperar alguns minutos.
Uma decisão importante pode precisar de reflexão antes de uma
resposta.
Um problema complexo raramente se torna melhor apenas porque reagimos
mais depressa.
Provérbios 19:2 afirma que quem se apressa com os pés erra o
caminho.
O princípio é simples: velocidade sem direção pode aumentar nossos
erros.
Antes de responder, podemos pensar.
Antes de decidir, podemos orar.
Antes de assumir mais uma responsabilidade, podemos avaliar se
realmente temos condições de cumpri-la.
Antes de interpretar uma demora como fracasso, podemos perguntar se o
processo ainda está acontecendo.
A maturidade também aparece na capacidade de não reagir imediatamente
a tudo.
Se a espera vier acompanhada da sensação de silêncio de Deus, continue a leitura em Deus se esqueceu de mim?.
Aprender a esperar também é aprender a confiar
Isaías 40:31 declara que aqueles que esperam no Senhor renovam suas
forças.
A ideia de esperar em Deus não combina com passividade.
Esperar envolve confiança.
Continuamos caminhando enquanto reconhecemos que nem todos os
resultados estão sob nosso controle.
Esse aprendizado pode ser difícil porque gostamos da sensação de
controle.
Quando definimos um prazo, queremos que ele seja cumprido.
Quando fazemos um plano, esperamos que tudo siga o roteiro.
Quando oramos, criamos expectativas sobre como a resposta deveria
chegar.
Deus, porém, não se torna nosso auxiliar de planejamento.
Nossa fé precisa ser maior do que nossa agenda.
Existem situações em que precisaremos agir.
Outras exigirão paciência.
Algumas pedirão uma decisão rápida.
Outras serão prejudicadas por qualquer tentativa de antecipação.
Discernir essa diferença faz parte da sabedoria.
Como desacelerar sem abandonar nossas responsabilidades
Desacelerar não significa desaparecer da vida.
Também não significa negligenciar trabalho, compromissos ou
família.
Precisamos aprender a organizar nossa atenção.
Uma mudança simples consiste em estabelecer momentos nos quais
fazemos apenas uma coisa.
Se estamos orando, oramos.
Se estamos conversando com alguém, ouvimos.
Se estamos lendo, lemos.
Se estamos descansando, permitimos que aquele momento seja realmente
descanso.
A fragmentação constante da atenção aumenta a sensação de que nunca
terminamos nada.
Outra prática útil consiste em criar pequenas pausas entre
atividades.
Nem sempre precisamos sair de uma reunião e entrar imediatamente em
outra tarefa.
Alguns minutos de silêncio podem nos ajudar a reorganizar pensamentos
e emoções.
Também podemos escolher horários específicos para determinadas
atividades.
Nem toda mensagem precisa comandar nossa agenda.
Nem toda notificação merece acesso imediato à nossa atenção.
O telefone pode ser uma ferramenta útil sem se tornar o organizador
de cada minuto do nosso dia.
Precisamos recuperar o valor do silêncio
O silêncio pode causar desconforto em quem se acostumou ao excesso de
estímulos.
Quando tudo fica quieto, percebemos pensamentos que estavam
escondidos pela movimentação.
Surgem preocupações.
Lembramos de decisões pendentes.
Percebemos cansaço.
Reconhecemos sentimentos que a rotina vinha abafando.
Por isso, permanecer alguns minutos em silêncio pode parecer mais
difícil do que continuar ocupado.
Na vida espiritual, porém, o silêncio possui seu valor.
Salmo 46:10 apresenta o convite para aquietar e reconhecer quem Deus
é.
Aquietar não é apenas diminuir o volume do ambiente.
Precisamos também reduzir a velocidade interior.
Podemos começar de maneira simples.
Alguns minutos sem telefone.
Uma caminhada sem conteúdo tocando nos ouvidos.
Um período de oração sem tentar preencher todo o espaço com
palavras.
Uma leitura bíblica sem a obrigação de terminar determinada
quantidade de capítulos.
Pequenos momentos assim nos ajudam a recuperar atenção.
A Associação Americana de Psicologia explica como o estresse pode afetar o corpo e a saúde. Informação responsável ajuda a reconhecer quando o cuidado profissional se torna necessário.
Quando esperar começa a produzir sofrimento intenso
Nem toda inquietação deve ser interpretada apenas como problema de
disciplina espiritual.
Existem pessoas enfrentando níveis persistentes de ansiedade,
alterações importantes no sono, sofrimento emocional intenso ou
dificuldades que interferem seriamente na rotina.
Nessas situações, oração, comunhão cristã e acompanhamento pastoral
podem oferecer apoio, mas não precisamos transformar ajuda profissional
em falta de fé.
Buscar avaliação de um profissional qualificado quando necessário é
uma atitude responsável.
Não devemos fazer diagnósticos de nós mesmos nem dos outros apenas
porque reconhecemos alguns sintomas em uma conversa ou texto.
Cada pessoa possui uma história e uma situação específica.
Fé e cuidado responsável podem caminhar juntos.
O livro Fé Inabalável aprofunda a confiança em Deus quando as respostas demoram. Ele está disponível na página de livros.
Deus trabalha também durante os processos que não conseguimos apressar
Algumas das coisas mais importantes da vida exigem tempo.
Uma árvore não cresce porque alguém ficou olhando para ela com
ansiedade.
Uma criança não amadurece porque os pais desejam acelerar os
anos.
Uma amizade não se aprofunda em um único encontro.
Uma vida de caráter não é construída em uma semana.
Nossa caminhada com Deus também se desenvolve ao longo do tempo.
Existirão dias de grande percepção espiritual e outros de aparente
silêncio.
Momentos de respostas claras e períodos em que precisaremos continuar
caminhando sem entender tudo.
A pressa pergunta: “Quando vai acontecer?”
A fé também aprende a perguntar: “Como devo viver enquanto ainda não
aconteceu?”
Essa segunda pergunta muda nossa postura.
Enquanto esperamos, podemos crescer.
Enquanto aguardamos uma resposta, podemos continuar obedecendo.
Enquanto determinada porta não se abre, podemos cuidar das
responsabilidades que já estão diante de nós.
Enquanto o próximo passo não fica claro, podemos permanecer fiéis ao
passo atual.
Não precisamos correr para provar que estamos avançando
Existe uma pressão silenciosa para demonstrar progresso.
Observamos pessoas alcançando objetivos, começando projetos,
comprando coisas, viajando, crescendo profissionalmente ou vivendo
experiências que desejamos.
A comparação pode transformar a caminhada em competição.
Começamos a correr porque outra pessoa parece estar adiante.
O problema é que nem sempre sabemos o caminho que aquela pessoa
percorreu, o preço que pagou ou quais circunstâncias fazem parte de sua
história.
Nosso ritmo não precisa ser definido pela velocidade dos outros.
Eclesiastes 3:1 afirma que existe tempo determinado para todas as
coisas.
O texto não é uma promessa de que tudo acontecerá exatamente quando
desejamos. Ele nos lembra que a vida possui tempos diferentes.
Existem momentos de começar.
Existem momentos de continuar.
Existem momentos de encerrar.
Existem momentos de plantar.
Existem momentos de esperar.
Sabedoria também consiste em reconhecer em qual desses momentos
estamos.
Podemos aprender a viver um dia de cada vez
Não precisamos vencer a pressa do mundo em uma única decisão.
Podemos começar hoje.
Talvez precisemos desligar algumas notificações.
Talvez seja necessário proteger um pequeno horário para oração e
leitura bíblica.
Podemos parar de levar o telefone para todos os lugares.
Podemos aprender a não responder imediatamente quando uma decisão
exige calma.
Podemos reorganizar compromissos que assumimos sem necessidade.
Também podemos olhar para nossa vida espiritual e perguntar se
estamos realmente encontrando Deus ou apenas cumprindo atividades.
A resposta não precisa produzir culpa.
Ela pode produzir mudança.
Deus não nos chama para uma corrida desesperada na qual precisamos
provar o tempo inteiro que estamos produzindo alguma coisa.
Jesus disse em Mateus 11:28: “Vinde a mim, todos os que estais
cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.”
O convite continua relevante para quem vive cercado de pressa.
Existe trabalho a fazer.
Existem responsabilidades reais.
Existem compromissos que não podem simplesmente ser ignorados.
Ainda assim, podemos cumprir tudo isso sem permitir que a velocidade
do mundo determine a velocidade da nossa alma.
Precisamos recuperar a capacidade de parar.
Ouvir.
Esperar.
Discernir.
Confiar.
O mundo continuará apressado, mas nós não precisamos permitir que
toda essa pressa governe nossa relação com Deus.
Qual parte da sua rotina precisa desacelerar para que você volte a
estar verdadeiramente presente diante de Deus e das pessoas que fazem
parte da sua vida?
No Amor de Cristo, Pastor Adilson
Batista




